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24 agosto 2012

Bianco

Bianco

O pedido de reserva em nome do empresário Gerônimo Batista da Costa juntou-se aos de outros 149 interessados que se deixaram seduzir pelas linhas do Bianco durante o Salão do Automóvel de 1976. Ele nem pensou duas vezes em se desfazer do Volkswagen SP2 e trocá-lo pelo esportivo construído por Toni Bianco, projetista de longa tradição nas pistas brasileiras. Foram crias dele, apenas para citar alguns exemplos, o primeiro monoposto nacional, o Fórmula Jr. - com mecânica DKW -, e o lendário Bino 47, da equipe Willys. O Bianco era derivado do Fúria, que disputou provas entre o fim dos anos 60 e começo dos 70. Com ares de Lamborghini Jarama, os GTs de pista chegaram a usar vários motores: FNM 2150, Opala seis cilindros, Chrysler V8, BMW e até um V12 emprestado de um Lamborghini.

A construção do primeiro protótipo do Bianco foi artesanal. Uma estrutura de arame deu origem às suas formas e a partir daí foram criados moldes para as partes de fibra de vidro. Os carros, que usavam a plataforma do Fusca, eram produzidos em Diadema (SP) à razão de 27 unidades mensais.
No aspecto de segurança, o carro já trazia elementos avançados para um fora-de-série daquela época. Tinha duas barras anticapotagem e reforço de chapa nas laterais para o caso de colisão. Ele concorria diretamente com o Puma e, não raro, era confundido com esportivos importados, até ser desmascarado pelo inconfundível som do motor boxer 1600 refrigerado a ar. Decididamente, suas linhas criavam uma expectativa que o motor não podia cumprir. A disposição do motor de 65 cavalos seria comparável ao entusiasmo de Dorival Caymmi diante de uma bola de futebol após o almoço. Os números de teste da edição de dezembro de 1977 mostravam uma leniente aceleração de 17,7 segundos no 0 a 100 km/h e uma máxima de mornos 146 km/h. Um motor que proporcionasse ritmo mais vivaz chegou a ser cogitado. Mas, segundo Toni Bianco, a idéia não se concretizou.
As portas amplas que se abrem para a frente dão acesso aos bancos de couro. Ao motorista, que se acomoda com as pernas rentes ao chão, é reservada uma esportiva posição de dirigir. À sua frente está um painel com completo arsenal de instrumentos e um nostálgico - e politicamente incorreto nesses tempos - volante com aro de madeira envernizada combinando com a bola da alavanca de câmbio. Quase tudo na cabine - painel, console e estofamento - é revestido de couro, recurso que dá um ar refinado ao ambiente. O motor é o mesmo que era usado na Brasilia, alimentado por dois carburadores 32 de corpo simples. A relação de diferencial, mais longa, foi emprestada do SP2. A estabilidade e a dirigibilidade eram pontos altos do Bianco.

O pequeno porta-malas fica na dianteira, e o estepe divide o cômodo com o motor. Os proprietários de Bianco contavam com assistência técnica da rede VW para eventuais ocorrências mecânicas.
Em 1978, foi lançada a Série 2. Com pequenas alterações externas e interior ainda mais bem cuidado, o Bianco foi exposto no Salão de Nova York. No mesmo ano saía o Tarpan, sucessor do Bianco, que foi fabricado até 1981, sem conseguir o brilho do antecessor.

O romance de Gerônimo com o Bianco dura até hoje, com direito a demonstrações explícitas de carinho. Para se ter uma idéia, há dez anos, o máximo de esforço que o carro faz é subir no caminhão que o leva aos encontros de carros antigos. Segundo o dono, o Bianco, que repousa na cidade de Mendes, no sul fluminense, "dorme de pijama", com duas capas de flanela e uma terceira impermeável. E, na hora de passear, nada de botar as rodas no chão: os pneus, ainda originais, são envoltos em capas para que não se sujem no pequeno trajeto entre o caminhão e o lugar demarcado para o estacionamento. Quase três décadas depois de ter sido produzido, o Bianco conta com apenas 40000 quilômetros registrados no hodômetro.


Quatro Rodas - Publicado na edição de junho de 2005.

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